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Hey Pai: Você Já Levou Seu Filho ao Médico Hoje?

"Eu sou uma mulher branca, de classe média, estudei em escolas bem legais, me formei na faculdade que escolhi e reconheço que faço parte de uma parcela muito privilegiada. E, ainda assim, lembro exatamente do pânico que senti quando Miguel nasceu e eu não conseguia sequer imaginar como eu ia fazer para voltar a trabalhar".

Por Thais Farage |  30 de agosto de 2018

Eu sou uma mulher branca, de classe média, estudei em escolas bem legais, me formei na faculdade que escolhi e reconheço que faço parte de uma parcela muito privilegiada. E, ainda assim, lembro exatamente do pânico que senti quando Miguel nasceu e eu não conseguia sequer imaginar como eu ia fazer para voltar a trabalhar.

Sou consultora de estilo; eu sou dona do meu tempo e da minha carreira, o que é ótimo, mas se eu não trabalho eu não ganho dinheiro. Simples assim. Talvez por isso, já logo de cara, eu tenha panicado. Não pensei direito como ia ser essa licença maternidade e achei, numa ingenuidade ridícula, que voltaria a trabalhar logo.

Sempre digo que me reconheci feminista depois da maternidade, porque é uma voadora no peito esse arquétipo mãe, essa expectativa que você, sozinha, precisa dar conta de tudo. Não conheço nenhum homem que precisa pensar o que faria com sua criança enquanto ele está no trabalho. O patriarcado não perdoa: é da mãe a carga maior (ou total em muitos casos). E é uma bola de neve super complexa: porque vivemos em uma sociedade muito machista e fomos, desde sempre, ensinadas que filho e família é a prioridade na vida da mulher. Quando virei mãe não era mais só o mundo me dizendo ‘fica em casa, cuida dele, mãe-é-mãe’; era eu também acreditando que era um crime deixar Miguel para trás e ir trabalhar. Demorei meses até levar para casa (eu era casada na época) a discussão ‘precisamos dividir igualmente os cuidados com o Miguel pra que eu consiga trabalhar também’.

Há 4 anos eu via pouca gente falando sobre maternidade e carreira e foi, sim, dificílimo para mim. Eu nunca seria feliz ficando em casa, abrindo mão do espaço público, ainda que essa seja uma escolha muito legítima. E eu jamais cogitei abrir mão da experiência de ter filho para me dedicar só à minha carreira.
Acabei de fazer um projeto super legal no meu Instagram: durante agosto chamei um pai por dia, todo dia, para contar como ele conciliava paternidade e carreira. 100% deles nunca tinha sido questionado sobre isso e é impressionante como quase ninguém responde o óbvio: é preciso ajuda. Ninguém, sozinho, consegue trabalhar e educar. Consigo contar nos dedos de uma única mão os homens que tiveram medo de não voltar para o trabalho depois de ter filho ou que foram demitidos ou que foram interrogados sobre a família em uma entrevista de emprego. Não acontece.
Toda vez que um homem não incomoda o mercado de trabalho com a chegada de uma criança na família, não só a mulher que divide os cuidados do filho é prejudicada. Todas as mulheres que trabalham com ele também serão. Todas as mulheres que precisarão faltar, sair cedo, flexibilizar horário, diminuir rendimento, serão. Nenhuma mulher conseguiu flexibilidade no trabalho sem lutar por ela, nenhuma mulher levou os filhos para o trabalho sem causar mal estar. Eu, sinceramente acredito, que está na hora dos homens se mexerem.
Homem branco, o topo da pirâmide no mercado de trabalho: será que você já levou seu filho ao médico hoje?
Thais Farage

Thais Farage

Thais Farage é consultora de estilo e escreve sobre moda, lifestyle e beleza. Gosta de  maquiagem asiática, adora viajar, fuçar brechó e está sempre lendo algum livro.