Infame

À Cria que Não Tive

"Digo a você, com toda convicção, que minha melhor decisão, ao lado de sua mãe, foi privá-lo disso tudo. Não como seus não-avós fizeram com teu pai. Eles me privaram da verdade. Os pais privam seus filhos da verdade por zelo, piedade, egoísmo ou procrastinação. Eu compreendo. Houve um tempo que era romântico trazer ao mundo criaturinhas indefesas que se tornariam o pesadelo na insônia dos pais".

Por Donny Correia |  30 de agosto de 2018

Querido rebento,

Jamais, eu e logo eu, um taurino raiz convicto e praticante, desejaria a você aquilo que nunca quis para mim: nascer.

Em seu vácuo, no silencioso caos do não ser em que habitas, tenho certeza que repousas mais tranquilo. Nada que existe ou venha a existir aqui do lado de fora, do lado expurgado, do lado banido e amaldiçoado, do exi-lado de cá faz sentido ou desperta a sanha por se exultar a data natalícia.

Digo a você, com toda convicção, que minha melhor decisão, ao lado de sua mãe, foi privá-lo disso tudo. Não como seus não-avós fizeram com teu pai. Eles me privaram da verdade. Os pais privam seus filhos da verdade por zelo, piedade, egoísmo ou procrastinação. Eu compreendo. Houve um tempo que era romântico trazer ao mundo criaturinhas indefesas que se tornariam o pesadelo na insônia dos pais.

Teus nunca-avós me ensinaram que a vida na bolha era a única opção. Tive de romper essa bolha à custa de muitas fantasias isoladas, lúbricas e sequiosas, idealizadas. E quando teu pai resolveu abrir a caixa de pandora, ele viu que o torniquete era o fantasma guardado no armário. Fui privado da verdade. Até confrontá-la, ou confrontar algo diverso da bolha, havia ideal. Dali por diante, o que restaria?

Meu lindo rebento, você não merece vir a um plano em que a conspiração impera. Hei-nos aqui, rogando clemência ao santo déspota que trairemos 90 segundos depois, se cabível for dentro de uma ambição pontual que satisfaça um fim efêmero que valha a lâmina.

É assim que vivemos por aqui.

Do lado de cá, tudo é insano, rápido, insípido, automático, instintivo, violento, injusto, corrupto, vil, venal, mesquinho e belo. Sim, belo por ser como é. Belo de uma beleza que eu não desejo que você conheça. A beleza de se ver corroído, devorado, deglutido, excretado. Meu rebento jamais será o EXCRETADO.

Não darei a você o direito à vida porque a vida não é um direito. A vida é uma sentença. A pena da qual nunca se saberá a duração.

Por ora vou cumprindo-a, mas sem planos de trazer ao cárcere deste corpo coletivo em cujas veias corre o zero, um verme a mais para se contorcer sobre a carne do mundo violentado.

Fica em paz, rebento querido, cujo nome nem sei qual poderia ser. Nada que valha a dor não estará à sua disposição. Como não sou vingativo, não serei eu a dar-te a frustração maldita que um dia tu rogarias contra teus, digamos, genitores.

Onde repousas, ora, e de cá, nonada, é melhor o não ser do nunca, que ser tudo a toda hora e tendo de ser tanto a todo instante e sendo todo e no intento do todo naufragar em praias do lodo.

Jamais faria isso aos meus eternos.

Regozije-se, feto inato e nunca engendrado. O que há aqui não lhe compete.

Amo-te, cria, ao ponto de nunca te ter.

Donny Correia

Donny Correia

Donny Correia é poeta, escritor e cineasta, mestre e doutor em Estética e História da Arte pela USP. Além de livros publicados, colabora com periódicos como O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. É o único brasileiro selecionado pela NASA para ter um poema enviado a Marte, a bordo da sonda MAVEN, em 2013. Contato: [email protected]