Infame

O Mérito da Burrice

“A burrice é uma cicatriz”, afirmam Adorno e Horkheimer em “Sobre a gênese da burrice”. Segundo eles, o início de nossa vida intelectual é delicado como a antena do caracol, que, ao encontrar algum obstáculo, se retrai e só muito hesitantemente volta a explorar o ambiente. Se o perigo permanece, ela voltará a desaparecer, cada vez se estendendo menos, até que não a veremos mais.

Por Edvaldo Colen |  11 de abril de 2018

“A burrice é uma cicatriz”, afirmam Adorno e Horkheimer em “Sobre a gênese da burrice”. Segundo eles, o início de nossa vida intelectual é delicado como a antena do caracol, que, ao encontrar algum obstáculo, se retrai e só muito hesitantemente volta a explorar o ambiente. Se o perigo permanece, ela voltará a desaparecer, cada vez se estendendo menos, até que não a veremos mais. “O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo”, dizem os autores. Ao sermos afugentados nos tornamos tímidos e burros.

A repressão que a antena do caracol encontra no ambiente é análoga à que, desde o nascimento, podemos encontrar no mundo, quando nossa curiosidade não é estimulada, ou pior, quando é inibida. Essas marcas deixadas em nós, como cicatrizes, nos enrijecem, dessensibilizam, nos tornam cegos. Geram deformações que se manifestam como impotência, que nos estagnam por meio de comportamentos “tateantes”, de repetidas tentativas desajeitadas (e cada vez mais raras) de sanar nossas dores interiores. Essa metáfora talvez nos ajude a entender porque mais de 23% dos jovens brasileiros (entre 15 e 29 anos) não estejam nem no mercado de trabalho nem na escola.

O trabalho é um dos aspectos mais importantes da realidade humana. É por meio dele que nossa espécie modifica a natureza externa, mas também a interna, pois ao produzirmos algo produzimos a nós mesmos. É o trabalho que produz toda a base sem a qual as relações sociais não se sustentariam. Nossa profissão faz parte de nossa identidade, diz do lugar que ocupamos no mundo, e se não acredita nisso, pense nas primeiras informações que você dá quando se apresenta ou lhe apresentam a alguém.

Pelo tempo dedicado, nosso ambiente de trabalho é responsável por muitas das referências que temos na vida. Ele pode ser fonte de satisfação e realização pessoal e social, mas também gerar exclusão, desigualdade e sofrimento, pois todo o potencial criativo e emancipatório que o trabalho possui tem sido minado por sua transformação em mercadoria, em única fonte de sobrevivência do trabalhador.

Se as longas jornadas de trabalho de dezesseis horas diárias hoje parecem absurdas e datadas para algumas pessoas, elas ainda existem, muitas vezes sendo motivo de orgulho para alguns “altos cargos”, em outras, sendo maquiadas por capacitações, tempo gasto no trânsito, limitações de fim de semana ou adoecimentos não revelados. Não é raro levarmos trabalho para casa, e o home office é uma das maiores expressões de como as esferas pessoal e profissional estão perdendo as fronteiras.

Numa cultura em que o trabalho tem um papel tão central, estar desempregado é estar à margem. Com o acesso ao emprego não sendo igualitário (e piorado em tempos de crise), “ser alguém” não é para todo mundo. Vagas de emprego até existem, mas segundo os empregadores, não existe mão de obra “qualificada”. E nesse aspecto, é cada um por si, perseguindo o maior número de anos de estudo possível como uma espécie de garantia de se tornar uma mercadoria mais cara. Como a escola moderna foi criada para adequar as pessoas ao mercado de trabalho, as vertentes que estimulam pensamento crítico e autonomia são exceções, não regra, e o foco educacional raramente é formar melhores humanos ou cidadãos, mas melhores técnicos.

Se a sociedade está estruturada de forma que a educação é uma das principais portas de entrada para o tão importante trabalho, falar na existência de meritocracia e igualdade de oportunidades quando o acesso à escola não é universal denota apenas duas coisas: ignorância ou má-fé, que, para Adorno e Horkheimer, são formas de burrice. Só assim é possível ignorar cenários e dificuldades vividos por muitos brasileiros (que em muitos pontos se assemelham a experiências em outros países) e aderir a discursos como o de que “se alguém é pobre, o é por preguiça”, algo que não se sustenta diante de uma reflexão mínima. E não é mera questão de opinião, são questões apontadas por vários estudos quantitativos e qualitativos sobre a realidade de jovens que já começam sua vida em desvantagem, tendo que lutar desde cedo contra racismo, papeis de gênero, pobreza e exclusão.

Retomando a analogia do caracol, a forma como o mundo responde a nossas primeiras investidas influenciará nossas relações ao longo da vida. A infância é também o momento em que temos nossas referências mais influentes, é quando nosso universo de alternativas é construído, quando aprendemos o que é desejável e o que possível. Esse universo pode se expandir com o tempo, mas isso demanda acesso a outras alternativas que também sejam desejáveis e possíveis. Sem elas ficamos limitados ao que já está dado.

Para que uma pessoa siga pelo percurso escolar e posteriormente tenha um trabalho que seja satisfatório pessoal e financeiramente, ela precisa ter sucesso em pelo menos três aspectos: motivação para a jornada, ter acesso a estratégias para superar os obstáculos do caminho e poder ter ações que efetivem a caminhada. São aspectos que se retroalimentam, não necessariamente seguem uma linearidade, e qualquer pessoa desprovida de qualquer um deles tem suas chances aumentadas de fazer parte das estatísticas sobre “fracasso”.

Sobre o primeiro aspecto, as relações estabelecidas com a família, amigos ou colegas são aquilo que mais fortalece a motivação. Ter alguém próximo para apresentar um repertório de possibilidades é importante para que o jovem possa aspirar a algo que não esteja presente em seu cotidiano. Exemplos de pessoas que estudaram e estão trabalhando de forma mais confortável são igualmente necessários para que esse percurso seja visto como possível. Afinal, como posso querer algo que nem sei que existe, e como posso pensar em chegar a um objetivo se acredito que ele não faz parte de minha realidade?

Devido a anos de desigualdade social, muitos lares não possuem essa figura motivadora ou esse exemplo a ser seguido. Grande parte dos jovens desconhece profissões que poderiam buscar ou não sabe os caminhos para chegar até elas. Muitas famílias são monoparentais, e o trabalho necessário para prover a casa rouba tempo que poderia ser utilizado para, por exemplo, ajudar nas tarefas escolares ou estimular a permanência na escola. Também é realidade de muitos ter de trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da casa, realizando uma jornada dupla que desmotiva e tira energia que poderia ser direcionada a estudos.

Há também exemplos que podem ser desmotivadores, como amigos que terminaram a escola e estão praticamente na mesma situação daqueles que a abandonaram, fazendo com que os estudos deixem de significar a possibilidade de mobilidade social. E mesmo quem pretende continuar estudando encontra dificuldades, como podemos perceber pela triste estatística de que apenas 14% dos brasileiros concluem o ensino superior.

Estratégias para superar as dificuldades são o segundo aspecto a ser cumprido. Primeiramente, há custos envolvidos nos estudos: transporte, material escolar, roupas ou tempo que se deixa de ter para fazer dinheiro são alguns dos “luxos” inacessíveis para muitas famílias. Além disso, o cenário de várias escolas de periferia é caótico, pois além das falhas de infraestrutura e ausência de professores, não são raros os casos de bullying e uso de drogas. Quando muitas vezes a maior motivação de uma criança para ir para escola é a merenda, vemos o quanto nosso sistema educacional reflete bem as mazelas da sociedade em que está inserido.

Essas são algumas das barreiras que muitos jovens encontram já nos primeiros anos de vida. Além disso, não há garantias de que o tempo dedicado ao estudo será recompensado no futuro com um emprego, e muitas vezes o que é ensinado em sala de aula não tem conexão com o cotidiano ou não faz sentido para a realidade dos alunos. Se não há um senso de pertencimento, referências ou elementos motivadores que sustentem a participação na escola, ela simplesmente será recusada por seus aspectos aversivos, visto que não parece haver retorno por todo esforço realizado para estar ali.

A resignação em não continuar os estudos também está presente na busca por trabalho. Depois de muitas tentativas fracassadas, a falta de acesso à educação e ao desemprego é vista como algo sem solução, fazendo com que muitos jovens acreditem serem incapazes de mudar o rumo de suas vidas. Aqueles que conseguem algum trabalho, pela baixa qualificação, geralmente assumem funções instáveis, informais e mal pagas. E como raramente quem começa a trabalhar nessas condições retoma os estudos, a situação se agrava, pois quem abandona a escola diminui em muito suas chances de melhores salários e oportunidades para o resto da vida.

Muitos dos fracassos recorrentes experimentados por esses jovens são frutos de estratégias ineficazes para alcançarem seus objetivos, como a antena tateante do caracol, que por meio de tentativas desorganizadas apenas tenta fugir daquilo que a violentou. E aqui entramos no terceiro aspecto: o das ações que realmente efetivam a jornada para uma melhoria de vida. Crescendo num ambiente de privações e pobreza, as estratégias de jovens da periferia, mais que de outros jovens, precisam ser mais planejadas e apoiadas. Há casos de gente que “deu certo”? Claro. Mas as chances de “darem errado” são imensamente maiores. Nesse sentido, orientação pode trazer a mudança.

Estudos sobre o tema mostram que os grandes diferenciais na vida dos jovens é o quanto a família se envolve em suas vidas, a participação em algum projeto social ou uma figura que os oriente, fornecendo ajuda pode ser desde a preparação para entrevistas de emprego até na elaboração de estratégias a longo prazo para cumprir objetivos. O suporte emocional e financeiro, a proteção contra más escolhas, a transmissão de experiências e informações, e o estímulo a focar na educação está presente em vários relatos de pessoas que não deixaram a peteca cair.

Infelizmente, esse apoio nem sempre está disponível. Como consequência, há jovens desmotivados, seja por fracassos recorrentes ou pela falta ao que almejar. Há aqueles que se imaginam em determinadas profissões, mas não sabem como chegar a ela. Há aqueles que desejam e planejam, mas não possuem suporte para seguirem caminhando. E há, claro, aqueles que conseguiram realizar seus sonhos e mudar sua realidade. Esses poucos que conseguiram, não o fizeram sozinhos. Não foi por mérito exclusivamente pessoal como os defensores da meritocracia gostariam de acreditar. Há sempre uma rede de oportunidades e apoios que sustentam realizações, que por vezes é fraca, noutras forte, mas nunca há um indivíduo sozinho. E é importante que essas trajetórias sejam amplamente divulgadas para servirem de inspiração para outras e também para a elaboração de políticas que diminuam as dificuldades. Por enquanto, a maioria das histórias de superação são utilizadas para reforçar o mito do “self-made man” (ou woman). Por trás da história de “se fulano conseguiu, todos conseguem” está a “preguiça” em tornar menos tortuoso o caminho dos outros, a negação de uma opressão estrutural e a responsabilização do indivíduo. Sucesso e fracasso são construções conjuntas e raramente alguém que superou tantos desafios se esquece disso. Como costumava dizer uma grande professora que tive: “no capitalismo, o pão que eu como necessariamente foi tirado da boca de alguém”.

O que parece é que a facilidade que alguém tem de ignorar o suporte que teve para estar num lugar privilegiado é diretamente proporcional à facilidade que teve para chegar ali. “O poder emburrece”, nos conta Nietzsche, e quem fala em mérito individual e se sente superior a outras pessoas tomando unicamente para si “suas conquistas” o faz não por estar livre das cicatrizes, mas expressa tipos diferentes de deformação, impotência ou burrice: a da cegueira que não permite ver que tudo se conecta, que nada ocorre no vácuo, que nossa realidade é histórica; ou da maldade em ver tudo isso e optar pelo cinismo.

 

Edvaldo Colen

Edvaldo Colen

Edvaldo “Ed” Colen é mineiro nômade residente na capital paulista. Formado em psicologia, tem interesses caleidoscópicos e há anos se dedica à vida acadêmica e a analises críticas da sociedade. Nas horas vagas é sommelier de pessoas e geek metido a chef.