Infame

As Melhores Coisas (que eu posso contar) sobre o Carnaval

"Todo carnaval eu me frustrava de algum jeito: uma bebia demais e dava PT antes do pôr do sol, a outra bebia demais e queria fazer xixi toda hora, tinha uma que sempre morria de fome (isso era o caos, porque esperar mesa em bar lotado e perder o carnaval é um sacrifício) e outra que acordava um belo dia e dizia “ah, hoje eu quero ir pra praia”... sacrilégio! Quantas vezes uma voz não me disse “ué, gata, ta insatisfeita vai sozinha, chega mais perto do palco sozinha, muda de bloco sozinha”.

Por Paula Zacharias Gabriel |  10 de fevereiro de 2018

Demorei muito para ficar à vontade no meu próprio corpo. Aos 12 anos tinha 1,72m e passei no teste de altura para o time de vôlei. Aos 13 ia nas matinês do Paulistano e do Resumo da Ópera, boates jurássicas para pré-adolescentes, e tinha uma cabeça inteira a mais de altura que o resto das pessoas (inclusive os meninos). Não dava para chegar discretamente, todo mundo avistava uma cabeça a mais de qualquer ponto da festa. Aos 14 minha mãe ainda me levara para fazer sapatos tamanho 40 na Casa Eurico (pasmem, o número feminino ia só até 39 nas lojas legais – salve a Shoestock, que criou a seção 40, fofa. Mas isso deve ter sido só lá pro fim do milênio). Aos 15 eu passava a noite curvada para escutar o que as minhas amigas conversavam, uns 20 centímetros abaixo do meu ouvido, quando estávamos dançando na boate (quem saiu para dançar antes da Techno sabe que se faziam rodinhas de amigas pra dançar poperô, ficavam uma de frente pra outra e fofocavam o tempo todo, gritando para superar o volume das caixas). Aos 16 eu passei de uma vara-pau para uma ameixa inchada porque parei de fazer esportes para acompanhar física e matemática no colegial e estudar para o vestibular. E tive acne. E não existia protetor solar especial para rosto, sem óleo. E meu cabelo era cacheado numa época ainda de creme rinse Neutrox, um desastre.

Eu gosto de dizer que o que me salvou do ostracismo foi o sangue boêmio. Filha de um pai que, digamos, sabe viver a vida e de uma mãe linda de morrer, ambos cheios de amigos, viagens e oportunidades que nasciam dos relacionamentos sociais, não pude ter outro gosto senão esse, pela rua, pela noite, amigos e a boemia. Sorte que não bebia muito, pois fui um prato cheio para a tendência cachaceira. Era entre amigos que eu me garantia. Quando tímida, eles falavam por mim. Quando na dúvida, eles tomavam iniciativa e eu ia junto. Por isso, aprendi a me deslocar em grupo, a me ver projetada nas companhias que escolhia e a preferir dividir do que fazer sozinha. A única complicação dessa maravilhosa vida entre amigos era que, se te deixassem ali sem apoio, numa desviada a caminho do banheiro ou solitária por dez minutos na mesa de bar, a memória daquele poste isolado no meio da pista de dança voltava com tudo. Aquilo era um registro eternizado no subconsciente de que todo mundo ia notar a sua presença mesmo quando você não quisesse – e uma adolescente de cabelo armado, espinha no rosto e uma cabeça a mais de altura nunca quer.

Chegamos ao carnaval. Sou louca por ele, segundo consta, desde os 5 anos de idade. Não podia ver serpentina, gente passando, festa de interior que dava um frio na espinha, sorriso tomava conta e as pernas queriam pular. Depois quiseram também sambar. Conheci o Rio de Janeiro aos 15 anos, me apaixonei perdidamente e acho que foi o amor mais arrebatador da minha vida. Em 2004, sem querer, topei com o carnaval de rua. Pati e eu íamos despretensiosas a caminho da praia quando passava o bloco do Carlinhos de Jesus, que saía do túnel na avenida Princesa Isabel em direção à Praia de Copacabana. Aquele ano mudou tudo. Passei a frequentar a festa popular sem abadá, sem entrar em clube, debaixo de sol, olhando o mar, o corcovado, a balsa pra Paquetá, a vista de Santa Teresa, o asfalto da avenida Rio Branco sob os pés. Acostumei mal. Passava o ano inteiro esperando por aqueles cinco dias e, na quarta de cinzas, ficava de luto, quase literalmente. Uma coisa que te derruba. A Nanda, das minhas amigas mais carnavalescas, sempre dizia “iiii lá vem você querendo mudar de bloco, querendo cobrir a cidade inteira, sossega leão”. Naquela época, o Rio ainda não lotava tanto e era possível transitar entre blocos quantas vezes quiséssemos, descer Santa Teresa sem ser espremido e pegar um táxi rapidinho ali pra Praça XV. Aurora, ganhei esse apelido do Sarno por causa da marchinha. E até hoje a Carina me chama assim.

Como nem tudo é perfeito, apesar das ótimas companhias, como a da Ju – que foi a mais grudada e mais parceira nos últimos carnavais que vivemos juntas – eu sempre achei que ninguém tinha a mesma energia para me acompanhar. Todo carnaval eu me frustrava de algum jeito: uma bebia demais e dava PT antes do pôr do sol, a outra bebia demais e queria fazer xixi toda hora, tinha uma que sempre morria de fome (isso era o caos, porque esperar mesa em bar lotado e perder o carnaval é um sacrifício) e outra que acordava um belo dia e dizia “ah, hoje eu quero ir pra praia”… sacrilégio! Quantas vezes uma voz não me disse “ué, gata, ta insatisfeita vai sozinha, chega mais perto do palco sozinha, muda de bloco sozinha”. Só que aquele maldito inconsciente me boicotava e eu tinha pavor só de pensar em ser de novo o poste sem apoio, sem os cachorrinhos em volta, sem um contexto social pra diluir a minha carência.

Um dia, dessa vez em São Paulo, no único bloco digno de adiar minha ida ao Rio nos dias oficiais de carnaval (o Tarado Ni Você, que sai sábado de carnaval no centro da cidade), eu me perdi. Me perdi sem querer querendo. Me irritou a lerdeza de um, enquanto o bloco acelerava e a música ficava distante, o interesse de outra em paquerar o cara que tinha parado pra comprar bebida do ambulante, e me irritou depender dos outros pra fazer o que eu mais gostava de fazer. A minha surpresa, enquanto trilhava meu caminho solo, rumo ao volume mais alto daquelas músicas transcendentais do Caetano Veloso, foi não ficar sozinha. Eu encontrava amigos o tempo todo. Cada um, no seu ritmo, vivia aquele momento de um jeito especial e particular. Todos festejavam, me acolhiam e, de um em um, eu ia cumprindo o percurso dos encontros mágicos, encantados pela beleza do carnaval e pelas maravilhas que ele faz com os nossos cinco sentidos.

No dia seguinte, embarquei para o Rio. Pela primeira vez, estava indo sozinha. Tinha comprado a passagem muito antes que as pessoas ‘normais’ pudessem se programar e não pensei mais nisso. Aluguei um quarto da amiga da amiga. Sabia que poderia (ou não) encontrar algumas pessoas lá. Veja, marcar de encontrar no carnaval não é marcar hora, lugar nem companhia. No máximo, você pode marcar o bloco, mas não tem garantia nenhuma de que vai conseguir cruzar com aquela pessoa. A bateria do seu celular acaba antes que você desista de tentar. No Boitolo, bloco que sai no domingo, tentei encontrar a Flavia por whatsapp, mas foi em vão. No minuto em que eu desisti de tentar, guardei o telefone e olhei para admirar o povo que subia nos arcos da Lapa, passou na minha frente a Gabi, de Brasília. Lembrei do que eu senti no dia anterior, em São Paulo: que eu precisava me perder mais para poder ser surpreendida. Que se perder era bom. E que não se fica sozinha no carnaval. Concluí que eu me diluo nele, sou parte dele e atraio os encontros naturalmente.

Naquele ano, por cinco dias, eu me deixei conduzir e abraçar pela energia acolhedora de uma massa tão familiar, tão lindamente independente e potente, pacífica, que se conecta pelo inconsciente coletivo. Um verdadeiro bloco, no sentido concreto do termo, de gente alegre, que se descola sincronicamente, conduzida pelo som e seduzida pelas cores, os brilhos e as texturas. Que é movido a cultura brasileira e a um poder ancestral de percorrer as ruas do Rio (de Salvador, de Olinda, de São Paulo) na condição de dono delas, de morar nelas, de conhecer cada pedacinho delas pelas lentes do carnaval. Eu não preciso levar ninguém para o carnaval, porque todo mundo já vai estar lá quando eu chegar.

Nunca estive tão em casa – nesse mesmo corpo.

 

Paula Zacharias Gabriel

Paula Zacharias Gabriel

Paula Zacharias Gabriel nasceu e foi criada no Brasil. É bisneta de libaneses cristãos que se misturaram com gregos e de uma brasileira que levava sobrenome português, pelo que se tem notícia. Não tem registro de mais nada para além de seus tataravós. Formou-se em Comunicação Social /Publicidade pela ECA-USP, tem especialidade em Semiótica Psicanalítica pela PUC-SP e é mestre em Antropologia Social pela LSE (London School of Economics and Political Science). É DJ de rock, indie rock, nu disco, electro rock e de vários estilos de música brasileira, além de co-fundadora da ‘Festa Samambaia’. É escritora amadora e uma apaixonada por esse lugar chamado Brasil.