Infame

Morreu o Melhor Amigo de um Amigo Meu: Em Memória de um Sorriso Desconhecido

"Nesse mundo terrível, o amor é um restinho de ar contado a dedo que não te deixa sufocar. Quando ele desaparece sem agendar horário, a gente agoniza, abafa por instinto, vira bicho e só consegue pensar em respirar com toda a força para repopular o espaço com amor".

Por Matheus Machado |  02 de dezembro de 2017

Tragédias de verdade doem mesmo que não sejam suas, ainda que sejam dos outros e não te digam nenhum respeito. Fulano de tal morreu de câncer terminal? Poxa, que notícia chata. Meus sentimentos. Que Deus alivie o sofrimento da família. Bla bla bla. Mas vamos ser sinceros: uma morte comum só dói fundo em quem já conhecia o morto. A dor de quem assiste de fora é protocolar, é etiqueta, convenção social. Nem chega a ser dor. Ninguém perde o sono quando o universo resolve agir discretamente e fazer aquilo que faz de melhor: varrer gente desconhecida para fora deste mundo, sem muito alarde e dentro de um cronograma relativamente planejado. Pessoas morrem. É natural. Todos sabemos disso.

Mas quando entra em campo uma tragédia puro sangue a coisa muda. Com o toque de uma varinha de condão metida a hippie, besuntada num senso comunitário e holístico de humanidade, a gente vira um corpo único, amarrado em torno de ligações nervosas comuns a todos, que nos fazem sentir a dor daquela mãe, daquele marido, daquele amigo que foi deixado para trás antes do tempo. Nessas situações, nessas mortes que não parecem servir só para alimentar estatísticas, até a mais crédula das pessoas pode perder a fé e pensar, que seja só por um doze avos de segundo, que dessa vez Deus errou, comeu bola, distraiu-se em meio às tratativas de um acordo de paz lá do outro lado do mundo e esqueceu de impedir o acontecimento de algo pequeno que jamais, em hipótese alguma, sob a vigência do mais injusto dos códigos de ética, poderia ter acontecido.

Pois é, ontem uma tragédia dessas bem verdadeiras veio correndo gritar bem forte no meu ouvido, mesmo sendo só uma tragédia dos outros, que absolutamente nada tinha de minha. Foi num post de Facebook. Meu amigo relatou o falecimento do seu colega de apartamento. Escorregou numa pedra de cachoeira e bateu a cabeça. Não sei maiores detalhes e, mesmo que os soubesse, os pouparia por uma questão de respeito.

Parei de ler o comovido texto de despedida antes mesmo de terminá-lo e fui olhar a foto de rosto daquele cara que já não estava mais entre nós, em destaque logo abaixo das palavras do meu amigo. Então o peso da cultura machista impressa à força no meu DNA, combinado com minha orientação heterossexual, travaram uma luta sanguinária contra a minha consciência, tentando impedir que concluísse em silêncio que o mundo havia perdido um cara bonito demais para morrer tão cedo. Boa pinta, foi como o classifiquei mentalmente, o máximo que consegui admitir sem abalar minha imagem de machão. Boa pinta, porém, era pouco. Bonito também seria pouco. Muito bonito ainda seria pouco. Mano, aquele cara era lindo. E seria capaz de repetir o “lindo” em voz alta na frente da minha namorada, dos meus pais ou dos meus brothers daquele grupo de Whatsapp que fariam piadas ao me ver chamando um outro cara de lindo. Não vou negar que era sim bonitão na aparência, aquele cara com quem você fica receoso de competir pela atenção de uma menina, mas lindo também, e especialmente, porque trazia no seu sorriso internético uma exclamação compulsória pelo direito de continuar vivo, um manifesto articulado a favor da imortalidade de seres que carregam algo especial dentro de si, um frescor de quem parecia saber, sem ser pretensioso, que qualquer dia desses acabaria fazendo algo que mudasse a trajetória da raça humana. É dessa beleza que estou falando. Não da beleza compreensível pela linguagem dos espelhos e dos olhos, mas da beleza que desafia o reino da estética e vai ser bela só para dar mais sentido à vida dos outros. Fala-se muito em beleza interna ou externa, mas pensá-las assim de forma cartesiana é empobrecedor em termos sensoriais. Não me refiro exatamente a nenhuma delas. Refiro-me à beleza que não é espacial, que não sai para fora nem entra para dentro, a uma beleza que aquece e acolhe e acompanha mesmo sem estar lá.

Deixei a foto de lado, voltei para terminar o texto do post de despedida e não contive mais as lágrimas. Além de tudo, o cara era gente boa. Fazia tapioca pros outros. Andava de bike. Era bem humorado. Gostava de sentar para trocar ideias profundas. Sem contar os claros indícios de que estava sempre pronto para ajudar quem precisasse. Chorei e pensei nas vezes em que nós dois provavelmente quase nos cruzamos, sentamos num restaurante um na mesa do lado do outro ou não fomos apresentados por um dos nossos dezoito amigos em comum só por uma questão de segundos.

O cara que morreu era de verdade. Existiu muito mais do que um monte de gente ainda insiste em existir por aí. Provável que falasse de um jeito só dele. Certeza que fazia alguma coisa de um modo que ninguém mais sabia fazer, como truques simples de mágica ou imitações do Sílvio Santos. E enquanto eu me dava conta do vazio que aquele desconhecido deixava na caixa torácica que dá sustentação emocional a toda humanidade, eu pensava que, de vez em quando, bate um negócio em mim e sinto que preciso de um novo melhor amigo. Um cara que paga sempre a primeira rodada de seja lá o que for que eu esteja bebendo, que vai animadão nuns shows de bandas que só eu conheço apenas para fazer companhia, que ouve até o final o que tenho a dizer. Chorava e pensava que poderia ter sido ele.

Por uma questão de justiça, deveria existir em algum plano ou instância metafísica um balcão de negócios clandestino onde se possa permutar uma vida bastante valiosa por três, cinco ou vinte outras vidas de menor relevância. Aquele cara, com aquele sorriso, com aquela dose concentrada de magnetismo pessoal, não poderia morrer assim tão de repente. Não era só uma questão de ser uma surpresa ou um imprevisto. Era uma questão de estar errado e ponto final. Morrer assim desse jeito é errado. Como alguém daquele calibre humano sobe numa pedra pensando se deve se apoiar nesse ou naquele vinco aberto na rocha e, coisa de três segundos depois, para de existir? Deixar gente assim tão especial escapar das nossas mãos do nada é imoral. É um golpe na praça contra quem ainda acredita que de vez em quando as coisas fazem sentido e que ainda vale a pena acordar cedo de manhã correndo atrás de um ou dois sonhos vagabundos. Porque depois que aquela rocha resolveu se posicionar toda molhada ali tão acima de tudo para escorregar pessoas iluminadas ao seu bel prazer, o mundo alinhou-se ao niilismo, rendeu-se à ausência de sentido, ganhou voz e gritou, lá do epicentro da Terra, que não estava mais nem aí para nada.

Perder alguém que se ama é desesperador. E digo isso mesmo sem nunca ter perdido ninguém que amasse loucamente. Mas não preciso ter passado por isso para saber. Só de fechar o olho e imaginar essa ou aquela pessoa caindo da pedra para nunca mais voltar lá debaixo da cachoeira já é suficiente para saber que não tenho um por cento do repertório necessário para lidar com amores interrompidos por tragédias.

Nesse mundo terrível, o amor é um restinho de ar contado a dedo que não te deixa sufocar. Quando ele desaparece sem agendar horário, a gente agoniza, abafa por instinto, vira bicho e só consegue pensar em respirar com toda a força para repopular o espaço com amor. A gente passa a vida acreditando que o contrário da morte é a vida e o contrário da vida é a morte. Mas não, quem opõe-se à morte é a beleza, o que alguns chamam de poesia, o que outros chamam de encanto ou de uma música bonita, de um livro genial ou um abraço de uma mãe. Pessoas vivas não ganham da morte com a vida, porque a morte não teme a vida, sabe que mais dia menos dia a vitória a espera. A morte tem medo da beleza. Caga-se de medo dela, sabe que contra a beleza ela não tem vez. Porque a beleza fica.

Ontem morreu esse cara aí da foto que eu nunca conheci. A tal da foto me contou toda a sua história, sobre os sorrisos que ele provocou, sobre como ele humilhava a morte a cada dia que saía da cama, fazendo com que ela tivesse vergonha de ocupar seu tempo matando. É como se sentisse a falta dele. Quase chega a doer. Hoje acordamos um pouco mais feios. Que puta cara lindo perdemos ontem.

Matheus Machado

Matheus Machado

Matheus Machado foi advogado tributarista. Por algum motivo, gosta de frisar que foi e não é mais. Hoje vive para o Infame, projeto que idealizou por achar que observamos muito pouco a vida ao nosso redor e com isso acabamos ignorando grandes histórias. Depende de música para existir e tem uma queda especial por punk rock e hardcore, ritmos pelos quais começou a entender a importância do submundo, do esquecido, do marginalizado. Diz estar feliz, mas no fundo no fundo queria mesmo viver só para escrever.