Infame

Ninguém é Brasileiro (É, Isso Mesmo que Você Ouviu…)

"O seu DNA é uma mistura absurda de ‘nacionalidades’, de que nem o álbum de família mais antigo ou o tio-avô mais velho têm notícia, de muito antes da palavra nação existir. Seu DNA percorre uma jornada desde antes de você ser homo sapiens que te trouxe aqui hoje. E você vai situar sua identidade, escolher suas batalhas, defender seus ideais baseado apenas nessa ou, no melhor cenário, em duas ou três gerações anteriores à sua, sem sequer analisar se isso te define ou vai definir as escolhas dos seus filhos num mundo cada vez mais globalizado, interconectado e com intensa circulação de bens e pessoas?".

Por Paula Zacharias Gabriel |  24 de outubro de 2017

Um povo que sempre oscilou entre o orgulho e a vergonha. Porque no futebol a gente é fera, nossas praias são tão claras, nossas flores são tão raras, a gente se vira nos trinta, não tem tempo ruim, o carnaval é o maior espetáculo da Terra, o improviso é o tempero da criatividade. Porque pra tudo se dá o famigerado jeitinho, porque nada funciona, porque o Brasil não vai pra frente, porque o Ayrton Senna morreu, porque foi 7 a 1.

Naquele dia do 7 a 1 eu tomei uma atitude. Foi uma humilhação tão grande, aquele zoom da câmera no rosto desesperado da torcedora (a cada segundo eu desejava que o câmera tivesse piedade e diminuísse o tempo de exposição àquela cena), meus amigos postando coisas horríveis nas redes sociais, tirando conclusões sobre o Brasil em que se misturava política, DNA social e corrupção no futebol, enfim, foi a pior ressaca que eu já tive na vida. E olha que nem bebi. Não dava. Não dava pra ficar assim tão vulnerável, pra me identificar com tanto fracasso, sentir que o fundo do poço não chegava e que a gente parecia não estar nem na metade dele. Por que cazzo a gente é tão passional com nacionalidade? E por que, pra piorar, a gente gruda a nossa na loteria do futebol? Então eu decidi que não sofreria mais pelas mesmas razões nacionalistas.

Na Antropologia, o conceito de nação é um dos meus preferidos. Foi ali que comecei a desconfiar que todos os problemas do mundo nasciam de uma ideia, de um princípio virtual, de um acordo, que influenciou o senso comum e que partiu de uma realidade meramente geográfica. A nacionalidade não é sequer uma raça propriamente, mas ela dá nome e rótulo ao seu sangue. Nações são tão somente comunidades imaginadas. Benedict Anderson (1983), historiador e cientista político, é o dono dessa teoria. Na minha interpretação, ele quer dizer que isso é um conceito, uma ideia que a gente compra e que rege tudo na nossa vida (direito civil, direito de ir e vir, o valor da nossa moeda, o valor do nosso trabalho e se vamos viver em paz ou em guerra).

Pensa aqui comigo: uma comunidade somente imaginada é diferente de uma comunidade em que todos os membros de fato se conhecem, ou pelo menos têm notícia de quem todos os conterrâneos sejam. Afinal, nada muito maior do que um vilarejo permite que se conheçam todas as pessoas que ali habitam. Por isso uma nação é tão somente uma ideia de comunidade, imaginada por pessoas que percebem a si próprias como parte daquele determinado grupo, que acreditam nessa história e se identificam umas com as outras pela língua (ou línguas), pela lei, pela liderança política e pelas fronteiras que as ‘protegem’. E a existência das nações como as conhecemos hoje só foi possível por causa da imprensa. O “capitalismo de imprensa” (Benedict Anderson, 1983) começou com a disseminação de livros no século dezesseis. Isso permitiu que diferentes grupos de pessoas, que falavam diversos dialetos, percebessem que podiam se entender, uma vez que consumiam os mesmos produtos culturais. A criação de um discurso comum, consumido e comentado por todos em cada agrupamento geográfico, foi o primeiro passo para a formação dessa ideia de coletivo.

Concluindo, de maneira bem superficial e resumida, só pra gente ficar com essa pulga atrás da orelha. Somos produto de:

– Uma sociedade que os portugueses instalaram aqui a partir de 1808 pela necessidade de fugir de Napoleão Bonaparte;

– Uma cultura de Casa Grande e Senzala, certamente uma das precursoras da concentração de renda (estamos entre os 10 países mais desiguais do mundo, socialmente – PNUD/ONU 2017);

– Uma mistura de todos os imigrantes que vieram obrigados, escravizados, refugiados ou por não terem melhor opção, para construir a vida aqui (afinal, original dessa terra mesmo é só indígena e, mesmo assim, eles já estavam aqui muito antes disso se chamar Brasil);

– De uma Imprensa muito concentrada na figura da Rede Globo, uma das maiores responsáveis pela construção imagética da representação de Brasil (seja lá o que isso represente pra você, da novela à figura do William Bonner, com Sassá Mutema, o Rei do Gado e a Carminha figurando no protagonismo, com o excepcional ‘Padrão Globo de Qualidade’);

– Da narrativa hegemônica que diz que existe periferia e centro, pobre e rico, preto e branco, certo e errado. E que fica cultivando e prolongando essas separações;

– Que exportou o carnaval da Sapucaí, a caipirinha e o futebol do Pelé (quem dera também tivesse mantido o padrão exportação Tom Jobim) – nada contra, que fique claro que eu AMO carnaval mais do que chocolate, defendo Pelé versus Maradona com todas as minhas forças e nunca troco cachaça por vodka nenhuma;

– Que está isolado culturalmente pela língua portuguesa nessa imensa América Espanhola de salsa&merengue, com suas obras primas samba, choro, forró, funk carioca, maracatu, frevo e tantas mais;

– E que hoje, mais do que nunca, não tem confiança política nenhuma para apostar sem medo em qualquer representante disponível.

Aí eu me pergunto: cada um de nós é isso? O quanto disso cada um de nós é? Somos tudo isso junto? Mas não somos também tantas outras coisas? Eu como homus com queijo brie e gosto mais de guaca-mole do que de feijão. Eu coloco João Gilberto e David Bowie na mesma prateleira de genialidade, eu venero Tom Jobim e Beatles, Cartola e Rolling Stones, Daft Punk e Nação Zumbi, Caetano, Chico, Gil, Elis e Rita Lee tanto quanto Bob Marley e eu já remixei ‘Could You Be Loved’ com ‘Eu Também Quero Beijar’, do Pepeu Gomes.

Que parte desse Brasil constrói a minha identidade? É preciso/ possível/ justo ir tão longe pelo meu país a ponto de desejar que um país vizinho se dê mal? Não seriam TODAS as guerras do mundo produto de uma ‘licença’ nacionalista e de um medo propositalmente instalado na população por seus governantes política e economicamente mal-intencionados? Pense nas consequências disso para o povo sírio hoje, para o povo judeu, sérvio, e tantos outros ontem.

O seu DNA é uma mistura absurda de ‘nacionalidades’, de que nem o álbum de família mais antigo ou o tio-avô mais velho têm notícia, de muito antes da palavra nação existir. Seu DNA percorre uma jornada desde antes de você ser homo sapiens que te trouxe aqui hoje. E você vai situar sua identidade, escolher suas batalhas, defender seus ideais baseado apenas nessa ou, no melhor cenário, em duas ou três gerações anteriores à sua, sem sequer analisar se isso te define ou vai definir as escolhas dos seus filhos num mundo cada vez mais globalizado, interconectado e com intensa circulação de bens e pessoas?

Lembra daquele vídeo ‘A Jornada do DNA’, que rodou a internet? É chocante como a gente tem ‘memória’ curta e acredita que nossa ancestralidade é representada pela nossa nacionalidade. Na verdade, nosso sangue carrega muito mais informações dessa trajetória genética e prova o contrário: que a gente é produto de uma combinação muito maior e mais complexa, e que nosso nacionalismo é uma espécie de miopia (o vídeo é resultado de uma pesquisa global, realizada pela AncestryDNA, para o buscador de passagens aéreas e reserva de hotéis Momondo).

Enfim, que tipo de brasileiro é você e quais as consequências de se sentir um? Para mim, é um alívio pensar que a nacionalidade é um conjunto de histórias de família, sabores culinários, amor pela terra e pela cultura, em vez de um passaporte que diz o valor que eu tenho para o mundo ou uma prerrogativa para atacar um país e se armar contra outro. Penso que a vontade de ser do mundo e de ver a paz no mundo também passa por não se deixar abater por um 7×1, por não aceitar o jeitinho como DNA fatal ou a condição de democracia quase falida como único destino possível. Que, antes de mais nada, devemos nos dar conta do mal que nos faz colocar nosso nacionalismo à frente do nosso bom senso. E, mesmo achando isso tudo, vou continuar gostando de lembrar que o Rod Stewart plagiou o ‘tê tê tê’ de ‘Taj Mahal’, do Jorge Ben, e que o avião deve ser creditado a Santos Dummont e não aos irmãos Wright. Mil gols, mil gols, mil gols… só Pelé, só Pelé.

 

Se você gostou do assunto, pode encontrar as teorias originais em:

 

Foto: André Ricardo de Oliveira

Paula Zacharias Gabriel

Paula Zacharias Gabriel

Paula Zacharias Gabriel nasceu e foi criada no Brasil. É bisneta de libaneses cristãos que se misturaram com gregos e de uma brasileira que levava sobrenome português, pelo que se tem notícia. Não tem registro de mais nada para além de seus tataravós. Formou-se em Comunicação Social /Publicidade pela ECA-USP, tem especialidade em Semiótica Psicanalítica pela PUC-SP e é mestre em Antropologia Social pela LSE (London School of Economics and Political Science). É DJ de rock, indie rock, nu disco, electro rock e de vários estilos de música brasileira, além de co-fundadora da ‘Festa Samambaia’. É escritora amadora e uma apaixonada por esse lugar chamado Brasil.