Infame

Eu Trabalhadora Periférica: Um Olhar Fotográfico sobre Mulheres que Marcham

Conversamos com o fotógrafo Gsé Silva sobre a sua carreira e um dos seus ensaios mais recentes.

Por Gsé Silva |  05 de setembro de 2017

Confira abaixo a entrevista que fizemos com o fotógrado Gsé Silva, em que responde perguntas sobre sua carreira em geral, bem como a respeito do ensaio em questão:

Nascido em São Paulo no ano de 1979, Anderson é autodidata e usa o pseudônimo “Gsé Silva” em seus trabalhos com a escrita, a fotografia e o cinema. Seu curta “Juventude é Revolução (2015)” foi selecionado para as mostras de cinema: “A Ponte”, organizado pelo Cine da Quebrada; “Mostra de Cinema Periférico”, organizado pela Fábrica de Cultura e Casa das Rosas, e “Festival Imagem-Movimento”, que acontece em Macapá com curadoria AFROFLIX, festival em que teve selecionado também o seu micro-curta “Ser Inata (2016)”. Ambos os curtas foram exibidos também no “IV Festival O CUBO” em maio de 2017, no Rio de Janeiro com curadoria da AFROFLIX.

Em 2015 dirigiu e produziu o curta “Domingo”, com texto do poeta Ni Brisant e co-dirigiu o video clipe “Menores Infratores” do rapper Dugueto Shabazz.

Em 2016 ganhou troféu do Festival do Minuto com o vídeo “Inconsulto”. Ainda em 2016 foi selecionado para a exposição fotográfica “Monogaleria” do Sesc Campo Limpo e da exposição “Por Ser Menina”, da ong Plan International, no Matilha Cultural, em São Paulo.

É integrante dos coletivos fotográficos “Semente Foto Coletivo”, que é dedicado ao universo do Hip Hop e do “DiCampana Foto Coletivo”, que retrata o cotidiano nas periferias.

Entre março e junho de 2017 dirigiu o documentário “Memórias do Bairro – Bairros do Capão Redondo”, resultado de um curso de audiovisual que ministra na Fábrica de Cultura do Capão Redondo.

1) Por que você se interessou por fotografia? Quais são as principais influências que teve ao longo da carreira?

​Meu interesse pela fotografia começou no cinema. Sempre gostei muito de filmes, adorava ir até a locadora do bairro na sexta-feira após o trabalho e alugar 3, 4, 5 DVDs para assistir durante o final de semana. Lembro até de uma amiga que tirava um sarro e falava que eu namorava com os filmes. Com o tempo foi crescendo a vontade de fazer meus próprios filmes e depois de juntar uma grana e comprar uma filmadora MiniDV, comecei produzir minhas primeiras imagens. Foi então que surgiu um interesse maior pela fotografia e pouco tempo depois eu estava não apenas filmando mas também fotografando tudo que via pelas ruas.

Durante esse processo de “aprendizagem” da fotografia, eu consumia tudo que podia me ensinar, tutorias técnicos e via muita fotografia como referência. Sempre gostei de vários estilos e posso citar alguns fotógrafos que sempre foram referências como Henri Cartier-Bresson, Steve McCurry, Sebastião Salgado, Théo Gosselin, Ansel Adams, Stephen Shore, David Alan Harvey, Miguel Rio Branco… Eu ficava (ainda faço isso) olhando todos os fotógrafos da Agência Magnum e havia o próprio contato com amigos fotógrafos.

2) O que mais te inspira como fotógrafo? O que gosta de fotografar e qual sensação você busca causar?

O que mais me inspira como fotógrafo é o fotografar. O lance de você sentir, observar, respirar, encontrar o melhor ângulo, o melhor momento, a melhor luz, captar um gesto de emoção ou simplesmente uma imagem que seja bela, que traga um sentimento bom. É muitas vezes como uma meditação.

Gosto de fotografar a espontaneidade da vida, daquilo tudo que nos cerca seja numa casa, na escola, pelas ruas por onde andamos. Gosto de encontrar harmonia nas cores, nas linhas, encaixes no cotidiano. Gosto quando é possível escutar sons e sentir cheiros somente olhando para uma fotografia. Gosto dos detalhes, tudo aquilo que quase sempre passa despercebido mas que tem muita força e beleza numa história. Gosto de fotografar pessoas, histórias, a cidade onde vivo, paisagens por onde viajo e mundos que eu imagino.

3) Você pode nos falar um pouco mais sobre seu estilo?

Venho dos movimentos culturais periféricos, dos saraus, da poesia. Transito entre fotografia, vídeo e escrita. Não consigo separar uma coisa da outra. Uso pouco equipamento e muita luz natural. Quase nunca interfiro no que está acontecendo quando estou fotografando, vou sentindo cada momento, cada instante.

Os assuntos que me atraem são nossas dores, nossa solidão. Aquele momento em que estamos sozinhos, quando a criança chora e a mãe não vê. Quando a gente volta pra casa e ali somos companheiros de nós mesmos. A filosofia sempre me interessou pelas perguntas que faz. O budismo anda ao lado de tudo isso e isso tudo acaba formando meu estilo. Meu estilo é não ter um estilo. Eu tenho inspirações, um olhar meu, dou mais valor ao sentimento do que para a técnica. É uma busca por respostas sem perguntas.

E para sanar toda essa angústia, esse necessidade de encontrar sentido, eu fotografo, eu faço filmes, eu escrevo. Não sou nada previsível, a vida sempre muda, sou sonhador e nostálgico, e essa salada toda que acabei de dizer forma meu estilo.

4) Você também pode nos falar mais sobre o contexto por trás da série enviada e as inspirações que te guiaram (ou foram geradas) com esse trabalho?

Eu ia mandar uma série com fotografias aleatórias de rua pois tenho muitas e muitas que gosto muito. Porém conforme fui me envolvendo nesse processo de escolha e com a pegada do INFAME, senti inspiração em escolher esse ensaio.

No dia 8 de março, milhares de mulheres foram para as ruas da cidade numa mobilização pela luta contra o machismo, o feminicídio e tantos outros fatores de injustiça contra a mulher. Um desses atos aconteceu na zona sul de São Paulo, começando no Jardim Ângela, passando pelo Piraporinha e terminando no Capão Redondo, áreas periféricas onde os números contra a mulher costumam ser mais alarmantes. Eu estive presente registrando a marcha “Eu Trabalhadora Periférica”, organizada pelas coletivas Fala Guerreira e ComunaDeusa.

É o meu olhar fotográfico sobre a sensibilidade daquele momento forte, da luta das mulheres, um dos trabalhos que mais me marcou fazer. É rua, é cotidiano periférico, é sentimento, suor e lágrimas. É sonho, é esperança, é acreditar. É olhar a outra e dar brilho para ela, é olhar o outro e dar brilho para ele, empatia. É reconhecer os próprios erros e querer mudar. Foram essas as boas inspirações que me guiaram a enviar esse ensaio. Difícil mesmo foi escolher apenas 10 fotografias. O ensaio completo com texto pode ser visto aqui.

5) Você acredita que seu trabalho, de alguma forma, tem algo a ver com a missão do Infame?

Acredito que meu trabalho se identifica com a missão do Infame no que diz respeito à inquietação sobre quem somos, nós, anônimos por quem passamos todos os dias. Por onde andamos, como interagimos com o nosso entorno, nossas ações, nossas arquiteturas.

Fotografar nas ruas é perceber estilos, é conhecer histórias e também reinventá-las. É poder dar força para as nossas lutas, aos que admiramos, que são reais, que estão próximos e são belos. Dar voz para os que gritam longe do mainstream. Sou formado nas ruas e sei bem quanta riqueza de histórias e talentos existem nelas. Esse talvez seja o ponto principal onde meu trabalho, minha história e minha inspiração se identificam com a missão do Infame.

Gsé Silva

Gsé Silva

Autodidata, nascido e vivendo em São Paulo desde 1979 Anderson, mais conhecido por seu nome artístico “Gsé Silva”, gosta de meditar e flerta com o cinema, fotografia e literatura. Aprendiz da vida e das ruas, hoje está feliz e hoje mesmo já ficou triste. Sabe que a vida é assim e que ela sempre vai. Como e para onde vai, essa é sua grande busca. Atualmente integra os coletivos “DiCampana Foto Coletivo”  e “Semente Foto Coletivo”. Confira aqui o seu perfil no Instagram