Infame

Todo Mundo Pode Melhorar a sua Situação de Vida, Basta Querer

Nascido e criado na Vila Ipiranga, uma das favelas mais violentas de Niterói, um menino cheio de sonhos ia quebrando as barreiras e estereótipos que o cercavam durante a infância, até ganhar o mundo, chegando inclusive a Hollywood.

07 de abril de 2018

Hoje trazemos a história de Jorge Brivilati, diretor de filmes e sócio de uma produtora considerada referência em São Paulo, a La Casa de La Madre. O interessante sobre Jorge é que ele fala sobre a sua trajetória usando aquilo que ele sabe fazer de melhor: o storytelling.

O argumento dessa história é mais ou menos assim: nascido e criado na Vila Ipiranga, uma das favelas mais violentas de Niterói, um menino cheio de sonhos ia quebrando as barreiras e estereótipos que o cercavam durante a infância até ganhar o mundo, chegando inclusive a Hollywood.

Parece ficção, mas é realidade. Convivendo em um ambiente hostil e bastante desfavorável, ele relembra que já perdeu vários amigos ao longo dos anos. “É muito difícil para alguém que está inserido nesse meio enxergar que existem outras oportunidades caso ela tenha o desejo de sair de lá. Quando eu tinha 12 anos vi que a maioria esperava a situação melhorar, mas ninguém fazia nada para conseguir isso. Eu estou dizendo: todo mundo pode melhorar a sua situação de vida, basta querer, batalhar muito e estudar. As pessoas precisam de exemplos a seguir. Tem muita gente com potencial e que nem sabe disso.”, afirmou em uma entrevista.

Jorge largou uma carreira bem sucedida em grandes agências de publicidade para abrir a sua produtora e, assim, criar um projeto com o qual sonhava muito: o uso do storytelling no mercado de comerciais. Assim surgiu o cine-comercial (fazer comercial para marcas com qualidade e produção de cinema). Hoje, diretor de filmes, é considerado uma referência, tendo sido eleito pelo Meio&Mensagem um dos dez diretores mais influentes do Brasil no segmento em que atua, além de ter sido, recentemente, finalista do LA Shorts Film Festival, em Hollywood, festival de curtas-metragens que pré-seleciona concorrentes ao Oscar na categoria, com o filme “Reencontro”. Também ganhou um Grand Clio de Entretenimento, um dos mais importantes festivais de comunicação criativa, leões de ouro em Cannes, dentre outros reconhecimentos, e foi responsável por campanhas para grandes marcas como LATAM, Nestlé, Nívea, Samsung, SKY e se prepara para lançar o primeiro longa de sua produtora, filmado em Mumbai e Varanasi, na Índia.

Aqui você pode conferir um pedaço da entrevista que o Infame fez com Jorge, onde ele conta um pouco da sua história:

Nos conte um pouco sobre a sua infância. Onde morava, como era esse lugar, as boas lembranças e as dificuldades.

Eu nasci em Niterói, mais precisamente na favela da Vila Ipiranga, uma das mais perigosas da região. Filho de pais separados desde os 3 anos, mas nem por um minuto me sentindo distante do meu pai. Ele morava no andar de baixo de um sobrado onde vivíamos eu e minha mãe. No primeiro andar ficacam meus avós paternos. Passei grande parte da infância ali, se não me engano até os 10 anos. Tive uma criação baseada em princípios bíblicos, uma vez que minha mãe é Testemunha de Jeová. No final, fui educado pelos dois, pois ambos estavam compartilhando a minha guarda.

Hoje, muita gente me pergunta se era perigoso morar na favela. Me vem uma dualidade, porque na época eu vivia com algumas regras básicas sobre como sobreviver lá. Coisas como: “na favela você não vê nada, não ouve nada, não sabe de nada” – dizia minha mãe. Ou ainda: “favela vazia é sinal de perigo” – se não tem criança brincando, vizinho brigando, laje sendo batida, então é porque tem algo errado. “Entra logo pra casa porque vai começar o tiroteio”. Mas, ao mesmo tempo, me sentia seguro também. Por ter nascido no local e conhecer a comunidade inteira, sentia uma [falsa] proteção lá dentro – a ameaça era quando a polícia invadia (não parece ter mudado nada).

Quais eram os obstáculos que você enfrentava naquela época e o que te movia a superá-los? Ouvia muito sobre trabalho ser apenas sobre sustento?

Tudo o que eu queria ia de encontro ao que minha mãe e a religião me ofereciam: uma vida simples, com um trabalho que apenas bancasse o necessário para ter uma vida voltada a Deus e que virasse um “pregador da palavra”. Lembro de uma discussão importante com minha mãe, quando ela tentava me persuadir a não fazer faculdade, terminar apenas o 2º grau. Eu respondi, impulsivamente, naquele dia que não queria passar minha vida como um técnico em uma lojinha consertando televisão, reclamando do presente, renegando o passado, com uma incerteza do futuro, esperando a hora mágica de ganhar na loteria e sair daquela vida.

O que você queria ser quando criança? Como você enxergava a possibilidade concretizar isso (sonho vs realidade)?

Se hoje eu não sei jogar futebol, é porque passava mais tempo em casa abrindo o rádio-relógio no intuito [em vão] de fazer meu nome aparecer no aparelho, ou estudando em um laboratório químico que eu havia montado com a ajuda do meu pai, em casa. Nunca tive videogame, então passava horas ali, produzindo hidrogênio e oxigênio das mais diversas formas possíveis, coletando células de tudo que era espécime para observar no microscópio. Saudade.

Eu realmente queria ser um cientista e estudava para isso. Lia livros que demorariam cinco, seis, sete anos para eu estudar na escola ou na faculdade. Eu me empenhava para isso. Comecei a estudar eletrônica aos 11 anos, por correspondência, para ver se eu finalmente conseguiria colocar meu nome no rádio-relógio (risos). Eu nunca vi o ambiente e tudo que me cercava como um limitador ou um dificultador para conseguir o que eu queria. Nem por um segundo, pensamentos duvidosos sobre não conquistar o que eu queria passavam na minha cabeça. A vontade de ser cientista durou até o segundo grau, quando fazia o curso técnico em eletrônica. Não porque eu pensava em ir para engenharia eletrônica ou algo do tipo, mas porque, aos 15 anos, eu fui apresentado ao HTML e, consequentemente, ao design. Nessa idade, eu já tinha certeza que eu era bom em alguma coisa e queria fazer aquilo para sempre. Minha vida mudou daí em diante, porque meu único objetivo era virar um designer foda. Eu acordava e dormia estudando design, fazendo cursos por correspondência, criando layouts imaginários e refazendo anúncios e sites de todo o tipo.

Quais as principais oportunidades que foram aparecendo ao longo da sua vida e como você as aproveitou?

Logo que comecei a estudar HTML em casa, surpreendentemente fui “vítima” de uma técnica bem simples de telemarketing: me ligaram em um sábado, dizendo que uma prima, que nunca souberam dizer qual, havia me indicado e eu tinha ganhado um curso de Photoshop grátis. Lá fui eu e, de fato, durante quinze dias aprendi o básico do programa, sem desembolsar um centavo. Até porque eu entrava de graça no ônibus com o uniforme da escola. Ao fim da quinzena, fui apresentado ao curso completo de um ano, onde aprenderia diversos softwares relacionados. Era um curso caro para pagarmos, mas ao ver o brilho nos meus olhos, como a coisa que eu mais queria em toda a vida, minha mãe disse um solene: se você quer muito, eu pago. E aí, tudo mudou. Uns nove ou dez meses depois de iniciar o curso, comecei a dar aula, porque sentia que faltavam algumas coisas a serem ensinadas. Apresentei a ideia ao diretor geral e ele me disse que, se eu conseguisse juntar uma turma de, no mínimo, treze pessoas, eu poderia. E, aos 16 anos, dei aula pela primeira vez, enquanto matava as aulas do ensino médio algumas vezes, o que me levou a repetir o segundo ano.

Conte um pouco da sua trajetória: educação em casa, estudos, referências importantes, cursos e trabalhos pelos quais passou.

Minha formação é bem prática, sem muita teoria. Eu sempre fui autodidata e um eterno curioso. Estudava bastante o que me interessava, trazia livros da biblioteca, cursos online e, o mais importante, praticava bastante o design. Aprendi muito nas agências de publicidade e lugares que trabalhei. Aos 17 anos, fui trabalhar em uma editora; aos 18, em uma agência de publicidade grande no Rio. Eu tinha o talento, só não tinha profissionalismo, dizia um chefe enquanto me demitia. Ele tinha a plena certeza de que eu teria isso logo, mas não podia esperar e me nem ensinar naquela época. Aprendi muito com algumas demissões (na verdade, duas) porque eu realmente analisava o que estava fazendo de errado. Desde que me entendo por gente, pensava que, na hora de tomar um pé na bunda, tudo mudaria se eu estivesse olhando para cima. Caso contrário, o chão seria o destino e eu nunca voaria longe como um foguete. Eu realmente pensava assim.

Quais pessoas tiveram um papel importante na sua evolução?

Meu pai e minha mãe. Pessoas que encontrei ao longo da minha vida, que tiveram paciência de me ensinar e me acolher, principalmente quando cheguei em São Paulo, aos 19 anos, sem família. Indiretamente, as queixas sobre a vida e sobre o dinheiro, que ouvia ao meu redor quando morava na Vila Ipiranga, também me motivaram muito, porque eu sempre repetia para mim mesmo: o que essas pessoas estão fazendo para mudar suas próprias vidas? Estão apenas sentadas esperando algo acontecer? Para sempre?

Você achou que ia chegar onde está hoje?

Nunca me imaginei como diretor de cinema na infância e adolescência. Ao mesmo tempo, eu nunca me imaginei com um teto, um limite. Também nunca me preocupei em “chegar” em algum lugar. Me preocupava em fazer, apenas. Adotei o lema de um livro que moldou meu modo de enxergar o futuro: “não é o quão bom você é, mas o quão bom você quer ser”. Isso é transitivo, é para sempre, constante. Não faço a menor idéia de onde vou chegar, só do que eu quero fazer.

Você contou em uma entrevista que fotografava desde os 7 anos de idade. Quem te deu a sua primeira câmera e o que você gostava de fotografar mais?

A gente tinha uma câmera de filme bem simplesinha em casa. Era a câmera para fotografar os eventos familiares, passeios etc. Mas, no meu aniversário ela vinha para as minhas mãos, junto com um filme de 24 ou 36 poses. Lembro de tomar um safanão da minha mãe, pois eu “estava gastando filme tirando foto de vizinho e da favela inteira”. Eu gostava de retratos.

Você também comentou uma vez que, ao fotografar, você olhava para onde as pessoas não estavam olhando. O que quis dizer com isso?

Quando olhamos para um determinado assunto, nossos olhos são condicionados a ver muitas vezes a forma como um todo, uma gestalt do objeto, digamos. Conhecemos bem alguma coisa quando olhamos de perto, vemos detalhes. Se observamos um muro muito grande de longe, vemos toda sua extensão, mas não vemos seus detalhes, que podem dizer muito sobre ele. Perto demais, não enxergamos sua dimensão, então é necessário esse puxa-empurra com o olho para entender o todo. No dia a dia, adjetivamos ou estereotipamos. Na fotografia, se fizermos isso, somos fotógrafos medíocres, satisfeitos com pouco. É como uma língua. Aprendemos uma estrutura, mas para dominar, precisamos conhecer palavras, etimologias, construções e ir a fundo nos detalhes. É como o universo microscópico. Tem muita beleza e muito pode ser dito através dos detalhes.

Muitos dizem que a publicidade e os publicitários tiveram a sua época áurea, mas que agora ambos sofrem uma crise de identidade, inclusive com muitos profissionais saindo desse mercado para trilhar outros caminhos. Você concorda com isso? Se sim, qual sua visão sobre essa “crise”?

Eu ouvi de um diretor de criação, quando trabalhava na W/Mccan: “a festa da publicidade acabou. O bolo já foi repartido”. Eu respondi: “então, eu estou bebendo o copinho de Coca quente que sobrou em cima da mesa”. Para mim, as pessoas simplesmente acordaram para ver que o trabalho não é a vida delas, e a vida delas não é o trabalho. E que não valem leões em cima da estante da firma, se você não consegue nem ver seu filho ou confirmar um jantar ou cinema com sua namorada, em pleno sábado à noite.

Conte sobre a La Casa de la Madre. Como surgiu, sua proposta inicial e o que ela representa hoje?

Ela representa coragem, mudança. Eu trabalhava na Young&Rubicam e, quando sai, convidei o meu dupla, Castilho e sugeri: “Fifty/Fifty? Casa de La Madre. Bora?” E ele prontamente disse sim! E essa vontade nasceu do desejo de fazer do meu jeito, do nosso jeito, e isso nos move constantemente a mudar sem medo. Nossa idéia era fazer diferente. O maior medo não era não dar certo, nem o financeiro. O maior medo era de deixar de criar todo dia, como fomos treinados a vida toda. Pensamos: ““E se” apenas recebermos os roteiros?! Precisamos criar nossos roteiros e filmar nossas idéias”. Oferecer Storytelling era exatamente o que precisávamos, uma vez que ninguém havia levantado essa bandeira. Abrimos as portas com um retumbante: STORYTELLING ao invés de FILMES, como todos faziam.

Quando você fala sobre o storytelling como um diferencial, como isso acontece na prática?

Narrativas envolventes. Histórias que fazem refletir com um propósito, mesmo que seja vender uma fralda ou um celular. Ninguém tem 30 segundos (eternos no pre-roll do youtube), mas todos temos vinte, trinta minutos, duas horas para ouvir uma boa história. Quando publicidade se apropria do conteúdo [bom], a mágica acontece. No entanto, não ficamos apenas no campo da publicidade. Hoje estamos reforçando a área de conteúdo, trabalhando em série diretamente com os canais.

Vocês falam no site de vocês que criam histórias que conversam com o coração e a alma da audiência. Como isso está sempre presente no processo criativo? Como, muitas vezes, isso se contrapõe ao objetivo de “vender” do cliente? Como dosar essas duas coisas?

Isso se dá quando você tem ou está em busca da sua verdade. Nenhum trabalho tem alma, se você não coloca a sua verdade nele. Fazemos isso em todos os filmes que tenham corpo para isso, que estejam procurando uma alma para hospedar.

Sabemos que existem inúmeras marcas e organizações querendo se apropriar de causas mais humanas e transformadoras, mas nem sempre elas conseguem utilizar um discurso verdadeiro em sua comunicação. O que elas podem fazer para que isso aconteça ?

Enxergar pessoas, não consumidores. Enxergar pessoas, não personas. Enxergar pessoas, não números. Simples.

Existe algum trabalho autoral seu (para marcas ou não) que te dê orgulho e que transmita a sua essência e seu modo de ver o mundo?

O filme que fiz para a Huggies, que conta a história da Tatiana, uma jovem mãe cega que vai fazer seu primeiro ultrassom. Tem muita verdade e poesia, principalmente nos detalhes, tem o “olhar para onde não estão olhando”, que é algo muito meu. E, claro, meu primeiro longa, que filmei na Índia (em pós-produção), que fala sobre mudança de vida. Em breve, nos cinemas.

Quando você olha pra trás e vê todo o percurso pelo qual passou, o que você pensa e como você se sente?

Olha, eu me sinto muito abençoado, em resumo. Eu fui creditado nessa vida com um dom, com um talento e tenho consciência disso, sem modéstia alguma. Eu tento aproveitar ao máximo o caminho que me foi apresentado. Sinto que gastei tempo demais, nos últimos anos, com lazer. Não vou entrar tanto em detalhes, mas tenho uma sensação constante que me acompanha de que poderia estar fazendo mais. Eu sou grato. Muito grato.

Se pudesse dar um conselho para um jovem, que também tenha vindo de uma realidade de periferia (onde a busca pelo sustento acaba, muitas vezes, se sobrepondo à busca pela vocação no trabalho), o que você falaria para ele?

Estude. Estude o que te dá prazer, mas também faça o que te dá prazer. Teoria sem prática é morta. Eu não fiz faculdade, mal terminei o segundo grau, mas nunca deixei que isso fosse um impedimento para eu fazer o que eu queria. Ouvir menos o que está ao redor e mais o que está dentro de você é a chave.

Qual filme/trabalho seu que seja emblemático para você e que represente muito essa evolução pela qual você passou.

É meu curta chamado LIA, que também é um videoclipe. Ele é importante para mim porque foi o primeiro trabalho que escrevi e dirigi e, ainda por cima, em outro país (Portugal). Eu consegui exacerbar minha linguagem e todo meu modo de ver o mundo. Ele fala muito sobre mim.

Links:

La Casa de La Madre

Jorge Brivilati